
Kamau | Documentário (2024)
- rapentinamente
- 23 de mai. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 23 de jun. de 2024

Por: Lucas Freire
No dicionário, a palavra documentário é descrita como um filme informativo não-ficcional sobre uma pessoa pública, uma cultura ou um acontecimento. Documentários normalmente buscam contar histórias, info afundo em fatos, traçando uma linha do tempo de narrativas sobre a própria existência de algo. É intrigante que a responsabilidade de produzir um álbum com esse título tenha caído justamente sobre o Kamau. Tratado como pupilo pelos que vieram antes, e como referência pelos que vieram depois, Kamau assumiu a difícil tarefa de ser o elo de ligação entre duas gerações distintas do rap paulista, a geração dos anos 90 – que coincide com ascensão dos Racionais MCs – e a geração de 2009 – que corresponde ao aparecimento de Emicida, Projota e Rashid.
Kamau vivenciou todas as transformações do tempo da cultura Hip-Hop no Brasil, seja como mero observador, como ouvinte ou como parte ativa dela. E, realmente, se fosse possível fazer um documentário da história do Rap Nacional, a direção não poderia estar em melhores mãos se não nas daquele que acompanhou todos os passos dessa trajetória do gênero até aqui. Porém, uma pergunta é inevitável, se o cenário atual do rap é dominado por uma juventude transviada em uma arte com 50 anos de existência, qual seria a função de um veterano como o Kamau na construção dessa história hoje? Qual o seu papel dentro dessa engrenagem? Talvez seja isso que o disco Documentário (2024) busque responder.
Nesse sentido, a certeza que o quarto álbum solo da carreira de Kamau passa é a mesma que o seu título sugere: um registro. Um registro de algo que ficou no passado e que busca provocar no agora tensões nostálgicas desse elo perdido. O que pode parecer pejorativo em uma cultura que está sempre valorizando a novidade, porém perfeitamente autêntico vindo de quem vem. Documentário é um disco marcado pelo tempo como forma de afirmação de identidade, desde a concepção da sua capa, passando pelas produções e até mesmo pelas rimas do artista. Se os ventos do rap nacional foram para outra direção nessa última década, Kamau traz em Documentário o que sempre fez de melhor: samples picotados, rimas cadenciadas e a calmaria de quem aprendeu a desacelerar porque entende que seguir no mesmo passo ainda requer bem mais compromisso.
Por outro lado, apesar do disco ter um conceito concreto, está longe de ser mais do mesmo ou distante demais para não se permitir ser flexível ao abstrato. O próprio processo de desenvolvimento do conjunto de músicas parece ter sido composto de muitas perguntas que resultaram em experimentações diversas.
As canções curtas que acabam de repente sem refrão, ou sem necessariamente ter alguma conexão com a sucessora, atravessam o ouvinte como pensamentos intrusivos. Os trocadilhos nos títulos das faixas da segunda metade da playlist, nomeadas como “DocMental”, como se fossem guias para o próprio Kamau se lembrar no futuro, definem bem a tônica do disco ao encapsular em poucos segundos um espasmo de criatividade, em documentar o próprio ato criativo do artista.
Ademais, no que diz respeito às letras pode se dizer que estão afiadas como sempre, é fácil se perder refletindo sobre a profundidade da escrita de Kamau, que consegue ser simples mas ao mesmo tempo cheia de verdade e complexidade. Os temas das músicas variam muito, mas a questão central parece ser mesmo a viagem introspectiva do artista ao refletir sobre a sua própria carreira até aqui, sobre a dificuldade de se continuar fazendo o que faz com o mesmo gás e essência.
Os instrumentais do disco se destacam pelo seu experimentalismo. No que tange os timbres e melodias, Documentário flerta em diversos momentos com o lo-fi hip-hop, ritmo caracterizado pelas batidas suaves e simplicidade técnica que cresceu de forma exponencial entre os mais novos nos últimos 8 anos. O lo-fi aparenta surgir de um contexto de fuga da realidade ou da busca de um momento de respiro do caos barulhento da cidade capitalista, talvez por isso seja utilizado para momentos de atividades relaxantes ou de concentração, como por exemplo o estudo. A sonoridade se encaixa bem na proposta das rimas e nesse ar de rotina que o álbum perpassa.
Talvez soe polêmico dizer que o hip-hop não inventou nada – mas reinventou, e segue reinventando, tudo. O rap nasceu de reimaginar músicas em outro tempo, em outro ritmo – o que chamamos de sample – , e nesse sentido, Documentário enquanto álbum também não tenta inventar a roda, mas se apresenta como uma versão repaginada dela. Nos últimos anos, falou-se de uma possível “volta do boombap”, mas o que o Kamau traz aqui está para muito além do que só um retorno — até porque nunca chegou a ir. Documentário é fresco, atualizado e moderno. Tão ancestral quanto futurista, ligando o passado no agora e vice-versa.
Novas ferramentas, velha pane pelo money. – DoisTres
O Rap como uma cultura jovem – e de jovem, produzida e consumida por eles – lida com questões muito pertinentes da sua pouca idade. Não entenda errado, 50 anos é uma longa história de vida e se pudéssemos comparar o Hip-Hop com uma pessoa ele já teria experiência o suficiente para contar aos mais novos. Porém, comparado a culturas seculares norte-americanas e brasileiras como o Blues, o Jazz e o Samba, a música Rap parece apenas um garoto recém saído da puberdade. O rap é “jovem” pois é um produto do presente, da contemporaneidade, uma cultura que se renova a cada ano se reorganizando em novos termos, novas sonoridades e sub-gêneros que parecem surgir somente com a finalidade de testar os limites de até onde vai o próprio conceito de música.
Por isso, é notório quando um nome como Kamau decide pelos seus próprios meios lançar um disco desse. O cenário do rap hoje é um mercado deveras competitivo, mas talvez o grande trunfo do álbum seja o fato de não buscar competir, mas sim contribuir. Sem buscar grandes hits instantâneos, sem procurar se adequar a tendências, abaixo do radar Kamau segue contando sua história dentro do Rap. Uma história que se confunde com a própria longevidade do gênero, documentando seu próprio tempo.


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