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Aori entre quadrinhos, loops e raps

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  • 1 de jul. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 1 de jul. de 2024

Após quase 10 anos desde o seu último Ep, Aori retorna ao cenario com o álbum O Pirata e o Jaganata


Foto: @talessx

Por: Lucas Freire


Aori dispensa apresentações. Fundador da Batalha do Real na Lapa e da Liga dos MCs, o rapper é uma entidade dentro do cenário nacional, além de uma figura central para se entender a história e as relações do rap no Rio de Janeiro. Agora, após quase 10 anos desde o seu último projeto, Anaga, Aori retorna para o seu derradeiro segundo álbum de estúdio O Pirata e o Jaganata, com produção musical assinada pelo Barba Negra.


Fã assumido de histórias em quadrinhos, Aori criou um verdadeiro universo em volta do disco, uma história digna de ser comparada as tramas mais memoráveis do gênero. "O processo criativo do Ralph (Barba Negra) para a construção das músicas é semelhante ao meu, misturando diversas influências e referências. Este álbum é um tributo ao nosso amor por contar histórias através da música e explorar novos mundos", afirma o artista.


Anaga Agbara Umehara Abboubakkar é o nome dado por Aori ao pirata a quem emprestou sua voz e caneta nas 10 faixas que compõem o projeto. Anaga – personagem criado pelo rapper –, vive em uma Terra paralela ao nosso mundo em que a música possui propriedades misticas. E é ele o responsável por nos conduzir nesse enredo na busca dos tesouros perdidos de sua família ao longo do disco.


Aori conta que teve a ideia inicial da história quando descobriu que o personagem Juggernaut, da Marvel, durante os anos 70, em um desvio na tradução brasileira na tentativa de se aproximar ao nome original em inglês, foi batizado de Jaganata. Essa descoberta levou a uma pesquisa mais profunda sobre Jaganata, que revelou a existência de uma divindade hindu com o mesmo nome, o que inspirou a criação da música homônima lançada durante a pandemia do coronavírus. O sucesso dessa música motivou a dupla a expandir a narrativa e explorar um universo que mistura quadrinhos, hinduísmo, pirataria e cultura pop.


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A Rapentinamente entrevistou o rapper para conversar um pouco sobre o lançamento do disco, como foi processo de produção dele e sobre o cenário atual do rap.



Seu novo disco, O Pirata e o Jaganata, sai quase 10 anos após seu último projeto solo Anaga , ao que você atribui esse longo espaço de tempo entre eles e quando foi que você sentiu que estava pronto para voltar com outro trabalho?


Cara, eu acho que esse longo espaço de tempo entre os álbuns se deve a outros momentos criativos e de trabalho que eu estava passando, e adaptação às tecnologias também. Mas, sobretudo, eu acho que esse disco vem com um propósito, né? Eu nunca parei de lançar música. Assim, volta e meia estava lançando sempre, me preocupava em lançar alguma coisa. Mas eu acho que essa parceria com o Barba Negra e essa história me puxaram para dentro, né? Eu acho que, quando eu boto a minha rima a serviço de uma história, ela rende mais. Então, eu acho que esse disco chega num tempo bom, assim, para a galera digerir e entender. É legal você ter falado do Anaga também. Se a gente for pensar no Inumanos, eu acho que tem uma linha aí entre esses discos que deixa a galera imaginar por si só.


O Drumless Beat é um sub-gênero que tem crescido bastante no underground norte-americano e brasileiro, seu novo disco parece beber bastante dessa fonte, era realmente essa estética que você tava buscando desde o princípio? Como foi essa troca de vivências com o Barba Negra do primeiro ao último dia de gravação?


Cara, essa estética do Drumless está gigante, né? No mundo todo, quase como uma resposta ao trap, né? O som sintético do trap desde os beats até a voz. E o Drumnless vem com uma postura muito orgânica, da batida do loop e a voz em primeiro plano. E, cara, eu já gosto muito dessa estética desde sempre. Sempre gostei dessa história do loop, desde o JD, Kanye West, galera do Griselda, toda essa galera do underground. A troca de referências com o Barba foi incrível, cara. A gente construiu realmente a quatro mãos todo o processo. Eu selecionei os beats entre centenas de beats que ele me mandou, fui montando a espinha dorsal e a gente foi conversando sobre os detalhes, as letras e para onde a história ia junto. Então foi uma bela parceria.


A gente vê que o álbum mantém uma linha narrativa bem coesa, fugindo bastante de uma certa tendência atual de discos sem necessariamente um conceito amarrado. Foi difícil construir essa história ou você já foi para o estúdio certo do que queria fazer?


A história foi surgindo naturalmente, cara. A gente tinha um esqueleto de um personagem quando fez a primeira música de Jaganata, em 2021, que era uma inspiração no Fanático da Marvel. Eu fui adicionando várias camadas, aprendendo mais sobre a origem do nome Jaganata, trazendo alguns elementos de pirataria, e eu acho que o Barba Negra foi fundamental para a construção do universo. A gente, literalmente, construiu um universo ao redor disso, né? E aí a história foi caminhando de um jeito muito natural. O personagem começou a falar por si só, o que eu acho que é a marca de uma grande história. Não era mais sobre para onde eu ia levar ele, era sobre contar onde ele já estava indo naturalmente. E, tipo assim, eu escutava o beat num dia, escrevia de noite. No dia seguinte, ia gravar e daí traçando os rumos.


O André 3000 recentemente deu uma entrevista dizendo que sente dificuldade em fazer rap aos 48 anos. Hoje o cenário do rap se renova a cada ano e parece cada dia mais jovem, como você vê essa questão? Como você entende seu papel hoje como um veterano dentro dessa engrenagem?


Então, eu acho muito autêntico do André 3000 expor essa questão dele, esse sentimento dele, mas é uma coisa muito particular também, né? Eu acho que o rap tem o desafio de, ao mesmo tempo, se manter fresh, mas se manter verdadeiro com quem ele é, né? Então, a gente tem várias fases na vida. E o rap é uma forma de arte capaz de retratar todos esses momentos, né? É até engraçado o André 3000 falar isso, mas a gente vê hoje em dia LL Cool J, Fat Joe, Rick Ross, Lupe Fiasco, toda essa galera das antigas fazendo um som da hora. Assim como no Brasil, o Mano Brown, D2, Rappin' Hood, né? Muitos MCs já próximos dos 40 anos fazendo música de qualidade. Eu acho que o rap põe um pouco essa barreira da idade na criação, né? Afinal, a maturidade, a experiência não podem ser descartadas. E, ao mesmo tempo, também tem um público mais velho que ouve coisas diferentes. Acho que a gente aposta um pouco nisso.


Qual sua interação com esses novos artistas que estão surgindo? Você tem acompanhado de perto ou se mantém mais distante? Sente que falta essa interação entre a nova escola e os que pavimentaram o caminho?


Eu costumo interagir, cara. Tem uma galera muito boa no underground atualmente, né? Matheus Coringa, galera do selo dele, Sujoground. Eu gosto do Hellv, do Galv. O Galv gravou um verso para a gente na Marreta. Deve sair num remix aí em breve. Gosto do Zudzila, converso bastante com o McAllister. É muito mais sobre afinidade do que sobre idade, né? E a gente está ligado que tem um público mais velho também que quer curtir coisas diferentes.





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